21 de novembro de 2009

The game

Pause . . .

Porque hoje, agora, me sinto assim. Porque gostava de conseguir parar o relógio. Só queria algumas horas, dias, semanas . . . Fugir, respirar, chorar, bater, gritar e aceitar.E depois, depois regressar, ser capaz de partilhar a vossa felicidade, apenas estar de corpo e alma.

Rewind . . .

Tudo o que já tive, todos os que partiram, todos os que expulsei . . . não passam, agora, de fantasmas. Os lençóis ficam frios, o perfume, esse, a memória insiste em guardar.

Forward . . .

O futuro, a felicidade por ele passará . . . o sonho, a ilusão, fugir da realidade. Quero acreditar mas não consigo, quero ficar mas não posso, quero mas não devo . . .

Stop . . .

A realidade . . . Coloca a máscara, sorri. Partilha a felicidade dos que estão em "encruzilhadas", sorri com eles, chora com eles, está para eles. A vida tem tanto para oferecer, tanto que uma vida só não chega.

Let´s pretend . . . Sorri e sê feliz. Continuo a precisar do teu colo, e resta tão pouco tempo . . . consigo ouvir o relógio que não pára.

Play . . .

10 de novembro de 2009



« Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
E em que o sono parecia disposto a não vir
Fui estender-me na praia, sózinho, ao relento
E ali longe do tempo, acabei por dormir

Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar

"Sou a estrela do mar só a ele obedeço
Só ele me conhece, só ele sabe quem sou
No princípio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força Ser dono de mim..."

Não sei se era maior o desejo ou o espanto
Só sei que por instantes deixei de pensar
Uma chama invisível incendiou-me o peito
Qualquer coisa impossível fez-me acreditar

Em silêncio trocámos segredos e abraços
Inscrevemos no espaço um novo alfabeto
Já passaram mil anos sobre o nosso encontro
Mas mil anos são pouco ou nada para estrela do mar

"Estrela do mar
Só a ele obedeço
Só ele me conhece, só ele sabe quem sou
No princípio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim..." »

15 de agosto de 2009

"Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumam — quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de sonho em relação às outras partes de paisagem — uma doçura que fazia com que eu as pudesse amar."

Bernardo Soares in Livro do Desassossego

14 de agosto de 2009

"E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera.

Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar.

Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração.

Quando ele te falar, levanta-te e vai para onde ele te levar."




Susanna Tamaro in Vai aonde te leva o coração

13 de agosto de 2009

Saudade...saudades...

Tenho tanto para dizer, para te dizer...tanto para mostrar, para te mostrar...fica sempre tanto por dizer.

Saudade...a saudade pode ser tão dissimulada quando deixa a mágoa das recordações felizes, aquelas que ficaram suspensas no passado. Perco-me nos labirintos das memórias, evoco as mais perfeitas lembranças...o teu cheiro, o contorno dos lábios, o riso, a respiração, as conversas...a saudade torna tudo tão perfeito.

Vejo-te no meio da multidão mesmo sabendo que não estás...Coisas banais como uma garrafa de cerveja na estrada fazem-me lembrar de ti, das nossas histórias, das nossas brincadeiras.

Como se apagam as memórias felizes que sabemos que não podemos voltar a ter?

Como esquecemos que fomos felizes?

Como?

Talvez, quando voltares, me possas responder a estas e a tantas outras perguntas...

Está a ser mais difícil do que imaginei...queria tanto sentir o teu abraço!

Volta depressa, traz as memórias felizes e os momentos bons...volta e promete-me que não foi um erro...

24 de junho de 2009

Mudança

O tempo passou . . .
O tempo passou e eu mudei . . .
Mudei porque cresci, porque amadureci, porque vivi . . .
Mudei porque sobrevivi a um leque tão variado de experiências que me forçou a aprender com os meus erros, que me ensinou a nunca desistir.
Mudei porque sofri decepções, decepções com o mundo, com as pessoas, com o amor . . .
Mudei porque gozei alegrias, porque conheci outras pessoas que me inspiraram, pessoas que me mostraram outro mundo, outro amor . . . Pessoas que me fizeram acreditar que desistir não é uma opção viável . . . Pessoas que de alguma forma me tocaram e contribuíram para o que sou agora: uma pessoa diferente, não melhor nem pior, apenas diferente.
O tempo passou . . .
O tempo passou, eu mudei mas sei que nem tudo mudou, nem todos me acompanharam . . .
Eu mudei e, apesar de todos os sacrifícios inerentes a estas mudanças, o balanço é positivo.
Tu não mudaste, o mundo que conhecia não mudou, lá fora continua tudo igual . . . Agora acredito que quem não resistiu à mudança é porque, simplesmente, não merecia o esforço . . .
O tempo passou e eu . . .
Eu mudei.

"Há duas características principais entre o vencedor e o perdedor. O perdedor faz o difícil parecer impossível, e o vencedor faz o impossível ser apenas difícil porém realizável." (Autor desconhecido)

8 de junho de 2009

« Margens

Há bocado fez amor sem realmente o fazer. Deixou-se estar quieta enquanto ele a abraçou, lhe acariciou os seios e depois, devagar, lhe escalou o corpo com beijos e um pénis estranhamente erecto. Com o tempo os beijos dele foram perdendo o sabor, pensou ela enquanto contava os traços de luz desenhados na parede. Ele veio-se...e depois foi-se, engolido pela prescrição que o obriga a ir trabalhar todos os dias às nove da manhã.

Enfraquecida, a luz vai morrendo devagar na parede do quarto depois de ter passado pelos buracos da persiana. Era tão bom que o dia de hoje pudesse ser diferente dos outros. Mas não é, e depois desta contemplação da morte natural dos raios de Sol, o dia dela não será muito diferente de uma receita médica qualquer que manda tomar medicamentos a horas exactas.

Há uma normalidade nesta vida que não pode ser normal. É a normalidade de casar, ter filhos, comprar uma casa e talvez um carro sem haver um depois. É como se esse fosse o último estágio da vida e, talvez por isso, ela tenha sorrido tanto no dia em que se casou. Eram os últimos sorrisos. Depois as conversas embriagadas de amor transformaram-se em discussões sobre a conta em que deve cair a factura da luz e do gás, o sonho de ter filhos transformou-se numa prisão cheia de fraldas sujas e choros de bebé a meio da noite e, por fim, os quarenta e tal canais por cabo substituíram as longas noites passadas com os amigos.
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Ele já chegou ao escritório mas ainda não ligou o computador. Não consegue deixar de pensar na mulher que lá fora, enquanto o semáforo para peões estava vermelho, olhou para ele do outro lado da rua. Depois cruzaram-se na passadeira e sorriram um ao outro, ela com um brilho nos olhos de amêndoa e ele com timidez. E por falar em passadeira, foda-se, a vida não tem sido mais do que isso: uma passadeira entre duas margens: a da casa e a do emprego. Tudo o resto é passagem. Tudo o resto é paisagem.


Ela já aqueceu o leite do miúdo no microondas durante doze segundos na potência máxima, já lavou os lençóis onde ele mijou mais uma vez durante a noite. Já os pôs a secar e já tirou do frigorífico a carne para descongelar até à hora do jantar. Só ainda não se ligou a ela mesma. Não consegue deixar de pensar em como a sua vida se transformou apenas numa margem: a da casa, e tudo o resto está na outra margem tão distante.
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Os insectos povoam os candeeiros redondos da rua em órbitas incertas. Incerta é também a noite mas, pela primeira vez, isso sabe-lhes bem. Ele telefonou e inventou uma desculpa qualquer para não ir jantar a casa, ela ganhou coragem e deixou o filho na vizinha. Talvez daqui a pouco se cruzem numa passadeira qualquer e sorriam um para o outro como já não se lembram de o fazer. Talvez até percebem que têm vivido em margens opostas. Talvez...entretanto, a carne em cima da bancada da cozinha já está descongelada e esquecida. »